Os animais são realmente necessários durante gravações de filmes?

Olá amigos!

Essa semana está repercutindo intensamente o caso do cachorro que sofreu maus tratos durante as gravações do filme 4 vidas de um cachorro.

Você pode saber mais sobre o caso aqui.

Aqui no Brasil o caso começou a ser noticiado por sites, ONGs e Movimentos ligados a causa animal, incluindo aqui o Reiki Veterinário. Após pouco tempo já estava nos canais e portais de notícias mais comuns do Brasil e internacionalmente está ocorrendo o mesmo.

Todo esse caso levanta duas importantes dúvidas que quero falar hoje.

1 – Os animais são realmente necessários durante gravações de filmes?

2- Quando dizemos que tem animais que gostam de participar de uma atividade como filmagens. Isso é um fato ou é uma percepção humana do que o animal estaria sentindo e querendo?

Então sobre a primeira questão. Animais reais são realmente necessários para um filme?

Aqui reproduzo boa parte do texto de um cineasta brasileiro, Carlos Daniel Vallada, enviou para o portal Vista-Se. (o texto completo pode ser lido aqui).

“Os casos de mortes propositais de animais em sets realmente parecem ter desaparecido, mas ainda são diversas as histórias de óbitos por acidentes ou más condições de alimentação ou acomodação. Para ficar em apenas dois exemplos, em Armações do Amor (Failure to Launch, 2006) um esquilo foi acidentalmente esmagado pela pessoa que o transportava de um lugar para o outro, enquanto em Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003) uma explosão submarina programada pela equipe de efeitos visuais fez com que dezenas de peixes e lulas mortas aparecessem na praia durante os 4 dias seguintes.

E você pode dizer que “acidentes acontecem”, é claro. Mas quando acidentes fatais são tão mais comuns com cavalos e animais não domesticados do que qualquer tipo de acidente com humanos ou até com cachorros – animais com os quais os humanos tendem a se preocupar mais -, fica claro que não é uma simples questão de acidentes, mas da mais pura negligência e não preocupação, mesmo.

OUTROS MAUS-TRATOS

É óbvio que a maioria dos incidentes de maus-tratos animais em filmagens não resulta em mortes. Em Resgate Abaixo de Zero (Eight Below, 2006) um cachorro entrou numa briga com outros e levou cinco socos no diafragma, já que seu treinador achou que essa seria a única maneira de apartar. Em Speed Racer (2008), após um macaco morder um dos atores, ele teria apanhado, também. E esses são apenas dois casos que ganharam repercussão.

Mas provavelmente, na maioria dos sets, você realmente não verá algum mau-trato animal tão evidente assim. Isso porque, em primeiro lugar, o confinamento e as condições de estresse causados aos animais durante filmagens não são considerados maus-tratos pela maioria das pessoas. E também porque muita coisa acontece antes dos animais chegarem aos sets.

Separação precoce da família, métodos violentos de adestramento e confinamento são frequentes para “animais atores”. Abuso físico e psicológico tanto para aqueles que irão servir à indústria do cinema quanto para suas mães. Punhos, cabos de vassoura, tacos e choques elétricos são utilizados para o treinamento. E quando os animais selvagens não servem mais a seus treinadores, muitas vezes são descartados em zoológicos de beira de estrada.

Chimpanzés e orangotangos, por exemplo, vivem mais de 5 décadas, mas são abandonados após 8 anos, quando se tornam grandes e perigosos demais para estarem em um set de filmagem. Aliás, os famosos sorrisos que chimpanzés parecem fazer com prazer tão frequentemente nos filmes, são na verdade uma reação de medo desses animais.

Não que não haja treinadores que, a seu modo – já que discordamos bastante -, sejam realmente preocupados com a integridade física e mental dos animais. Mas um dos mais famosos treinadores de Hollywood, ligado a produções recentes como Homem-Formiga (Ant-Man, 2015), Maze Runner (2014) e 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013), é acusado de diversas violações, incluindo má alimentação, agressão física, pouco espaço oferecido aos animais e até a suspeita de que alguns deles tenham vindo do mercado negro.

“NENHUM ANIMAL FOI FERIDO”

E ninguém faz nada a respeito? Bem, a American Humane Association (AHA) é uma organização dedicada ao bem estar de animais e crianças e, desde 1940 – após o incidente do filme Jesse James – tem a função de monitorar presencialmente a utilização de animais em cenas para o cinema e a televisão. É dela o selo “No Animals Were Harmed” (“Nenhum Animal Foi Ferido”) que se vê após os créditos de produções cinematográficas. Porém, uma reportagem de novembro de 2013 da revista The Hollywood Reporter (leia aqui, em inglês) mostrou que essa está longe de ser uma organização confiável para o que ela se propõe.

Para começar, ela não fiscaliza a pré-produção nem as condições de vida ou de treinamento dos animais fora do set. Ela também não tem nenhum poder real de paralisar uma filmagem, aplicar multas ou qualquer coisa do tipo. E também não consegue fiscalizar todos os sets – aproximadamente metade das cenas com animais, apenas -, por motivos como distância da locação, calendários que mudam, filmes que simplesmente não pedem o monitoramento e também a falta de funcionários, o que às vezes faz com que um representante tenha apenas cinco minutos para observar as condições de uma filmagem, antes de partir para a próxima.

Além disso, a American Humane Association diz que não fiscaliza animais em trânsito ou em acomodação entre filmagens. Se um animal é machucado não intencionalmente e não durante a execução da cena em si, o filme é basicamente isento de culpa.

Mas também há problemas que são muito mais uma questão de falta de vontade mesmo por parte da AHA. A representante encarregada de monitorar o filme As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012) mandou um e-mail para uma colega, falando sobre como o tigre King quase morreu afogado durante uma cena, e pedindo para que não comentasse a história com ninguém, “especialmente com o escritório”. Em outro caso, quando questionados por oficiais que investigavam a morte de dois cavalos durante as filmagens de Flicka (2006), os funcionários simplesmente os xingaram. Representantes que reclamam do tratamento de animais em sets muitas vezes são considerados “causadores de problemas” e, assim, podem não ser escolhidos para monitorarem produções de pessoas mais famosas, poderosas, ou próximas dos membros da AHA.

Aliás, considerando que a organização é financiada basicamente por atores e produtores de Hollywood – alguns dos quais são próximos da AHA -, é quase como se os filmes fossem fiscalizados por aqueles que os fazem. Outro problema é que, como não é um órgão do governo que tem esse papel de regulador da indústria, não há leis de divulgação que impeçam os dados de permanecerem em segredo.

Não é comum que a AHA faça reclamações formais sobre os filmes ou que pelo menos recuse seu selo de “Nenhum Animal Foi Ferido”, o que faz com que esse seja basicamente uma mera declaração de que não houve nenhum assassinato intencional durante as filmagens. No final das contas, o selo tem uma função quase inútil nos dias de hoje – totalmente inútil, aliás, considerando o acesso que temos às informações e também que há muitos filmes não monitorados -, dizer que aquele animal que morre durante o filme não morreu de verdade na frente das câmeras.

TUDO BEM SE BEM TRATADOS?

Isso tudo para mostrar que, mesmo que você acredite que não seja um problema o uso de animais em set em si, desde que não haja maus-tratos, é muito difícil afirmar que não houve maus-tratos em alguma produção. Na verdade, a única forma de afirmar que não houve maus-tratos a “animais atores” é se não houver “animais atores” no filme, já que isso é algo que vai além da competência dos produtores no set. Mas, como eu disse, discordo dessa visão de que o uso em si não seja um problema. E peço que fique comigo por mais alguns parágrafos.

Usarei agora, como exemplo, três longas muito bem intencionados em seus discursos, mas que merecem ser criticados em outros aspectos.

Recente candidato húngaro à indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa Deus Branco (Fehér isten, 2014) conta a história de um cachorro normal – não fala, não se mostra muito mais inteligente que o esperado, não é antropomorfizado de forma alguma – que, após ir parar num canil, consegue fugir com outras dezenas de cães em busca de vingança por aqueles que o maltrataram. A obra, além de falar em defesa dos cachorros, claramente relaciona o consumo de carne aos maus-tratos. As cenas onde há brigas entre cães ou um deles atravessando uma rua movimentada foram filmadas sem nenhum tipo de perigo para os animais envolvidos. Mas o fato é que foram usados quase 280 cachorros no filme.

Já Babe – O Porquinho Atrapalhado (1995) tem uma bela mensagem contra o consumo de qualquer tipo de carne, mostrando ao público que todos os animais merecem igual consideração moral do ser humano. Além disso, o longa foi diretamente responsável por um boom de vegetarianismo nos Estados Unidos, e o protagonista James Cromwell virou vegano após seu convívio com animais no set. E esse é o problema. Embora aproximadamente metade das vezes em que vemos algum pato, porco, gato, cachorro, rato ou ovelha em cena, eles sejam bonecos animatrônicos, foram usadas 550 ovelhas, 48 porcos e mais de 300 outros animais

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011) é um filme que critica o uso de animais na indústria farmacêutica e também tenta fazer com que o público se sensibilize com os grandes símios, mostrando que eles têm direito à liberdade total. Além disso, a produção não usou nenhum chimpanzé, bonobo, orangotango ou gorila durante as filmagens, utilizando a tecnologia de motion capture (captura de movimento) para representá-los. O longa foi elogiado até por entidades de defesa animal, por sua mensagem e seus métodos, mas ainda assim teve a presença de cavalos reais durante o clímax.

Antes da primeira cena de Deus Branco, a produção já faz questão de dizer que as centenas de cachorros coadjuvante foram pegos de abrigos para cães e que todos eles arranjaram tutores ao final das filmagens. Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade (Babe: Pig in the City, 1998), a continuação de Babe, também usou dezenas de cães retirados de abrigos e conseguiu com que todos fossem adotados. E é óbvio que fico feliz com essas centenas de cachorros conseguindo um lar, mas eles não poderiam ter conseguido sem serem usados para os filmes?

É difícil assistir ao longa húngaro sem pensar no quão exaustivo para os animais deve ter sido filmar algumas das cenas. Isso sem falar na tortura psicológica que deve ser para um cão “simular” sensações como medo, raiva e tristeza. O mesmo acontece com algumas cenas nos dois longas sobre o porquinho atrapalhado. Na verdade, em maior ou menor grau, o mesmo acontece em qualquer filme que tenha algum animal em cena.

Além de todos os fatores pré-set já citados anteriormente e que as produções raramente têm algum controle sobre isso, pense no quão estressante deve ser para um animal estar em um ambiente desconhecido – muitas vezes um estúdio quente ou um lugar há milhares de quilômetros de seu verdadeiro lar -, cercado por gente desconhecida – muitas vezes dezenas e dezenas de pessoas -, tendo que fazer repetidamente algo que mandaram ele fazer. Pense no quão estressante isso não seria para uma criança. Pense no quão estressante isso não é, muitas vezes, até para adultos que escolheram estar lá.

Um animal não deveria ser obrigado a fazer nada que não queira, a não ser em casos para o próprio benefício desse animal ou para a segurança dele ou de outros animais ou até humanos. Mas uma filmagem está longe de ser algum desses casos, mesmo quando quer passar uma mensagem de direitos animais, pois há soluções alternativas.”

No final do texto, Carlos fala uma coisa muito interessante: “Um animal não deveria ser obrigado a fazer nada que não queira”.

Essa leva a nossa segunda e última reflexão. Prometo ser breve agora.

O que um animal não-humano quer? Qual é a vontade dele?

Olhe a redor. Lembre de situações com amigos, família, crianças e bebês.

Certamente já aconteceu de você achar que um amigo estava querendo algo e na verdade ele não estava. Ele queria algo totalmente diferente ou expressava uma necessidade totalmente diferente da que você supôs.

Aliás, esse é uma das principais dificuldades de casais. Entender a necessidade do outro. Sempre há muito mal entendido e suposições equivocadas nos relacionamentos humanos.

E com crianças? Quantas vezes assumimos que a criança queria algo ou que determinada atitude seria melhor para ela, quando na verdade estávamos errados?

De fato, a psicanálise surgiu disso. De lidarmos e corrigirmos os erros que os adultos cometeram conosco quando ainda éramos crianças.

Se nem com a própria espécie podemos ter certeza do que o outro quer e sua necessidade, como poderemos ter certeza do que um cachorro, gato ou qualquer animal de outra espécie realmente quer?

Partindo desse princípio, como podemos afirmar como fato que alguns animais gostam de participarem de filmagens?

Acredito que o pensamento nosso deveria ser:

Se há alternativas, como computação gráfica, para não precisar utilizar animais reais, e não podemos saber com certeza se um animal gostaria ou não de participar de determinada atividade para os humanos, na dúvida, o melhor é não utilizar um animal real.

É simples essa decisão porque não precisamos de animais reais já que há tanta tecnologia hoje em dia para se criar animais por computação, entre outras técnicas.

Os estúdios de filmagem podem mudar e pararem de usar animais reais, mas isso só irá acontecer quando você, eu e a maioria dos animais humanos começarem a exigir isso e demonstrar insatisfação toda vez que fizerem um filme que animais reais tenham sido usados.

E você?

O que acha disso tudo?

Abraços

Ricardo Garé

Veterinário Holístico e Mestre em Reiki

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